A VIAGEM

Uma carta do Fundador da Quinta, Barão Bodo von Bruemmer

Tenho agora 105 anos e os meus colaboradores pediram que escrevesse um texto para constar na nossa página de Internet. Ao começarem a ler esta carta, devem pensar que não tenho ideia acerca do Marketing moderno, mas devo dizer que gosto muito do meu Ipad, de trabalhar no meu computador e que tenho aprendido muitas coisas nos últimos anos através do Google. Por isso, as tecnologias não me assustam, pelo contrário ajudam-me a manter-me actualizado e informado, os meus bisnetos foram os meus tutores nestas novas tecnologias…

Gostaria de escrever um pouco acerca de mim e do Casal Sta. Maria, porque espero que mesmo na minha ausência, nos próximos anos muitos de vocês possam visitar-nos.

Para me perceberem melhor e o porquê da minha vinda para Portugal em primeiro lugar, terei de explicar as razões. Nasci nas Antigas Províncias do Báltico (Estónia, Livónia, Curlândia) e durante a Revolução Russa tivemos de fugir em 1918, para a Alemanha. Depois frequentei 15 escolas e universidades diferentes até finalmente aterrar na Suíça, onde passei a maior parte da minha vida profissional como banqueiro (o que mais poderia fazer eu na Suíça).

No entanto sempre, desde que perdemos a nossa casa em 1918, foi o meu desejo procurar um lugar na Europa onde pudesse construir uma nova tradição familiar. Á medida que fui envelhecendo, mais convencido estava de que a agricultura e o campo seriam parte desse sonho. Assim que fiz 50 anos, decidi que era tempo de partir em busca desse lugar. Sempre associei aos meus sonhos dias solarengos, e numa dessas viagens que fazia a Portugal, no início dos anos 60, visitei Almoçageme e encontrei este magnífico lugar – Colares. A casa estava em ruínas, mas toda a sua envolvência e a vista eram únicas. E foi assim que decidi comprar o Casal Sta. Maria.

A história desta Quinta remonta ao início do século XVIII. A casa principal foi construída em 1720 e surpreendentemente conseguiu sobreviver ao terramoto de 1755 devido à estrutura granítica da Serra de Sintra. No seculo 19 os antigos donos do Casal produziam vinhos, mas o consumo e os acontecimentos históricos fizeram com que a produção de vinho cessasse em 1903.

A renovação e a construção de todo o casario que compõe hoje o Casal Sta. Maria, demorou 3 anos. Até 1974, tivemos produção de leite de vaca, assim como algumas galinhas e hortas. Lembro-me desses tempos com muita nostalgia e. A nossa relação desde esses tempos com os Bombeiros e a Polícia de Almoçageme e o apoio que regularmente damos a essas instituições, demonstram o nosso agradecimento e paixão por Colares.

Eu e a minha mulher depois dos primeiros anos, ambicionávamos mais. Começámos então uma Criação de Cavalos Árabes, a primeira em Portugal, ao mesmo tempo um recinto de cavalos de corrida foi construída em Cascais. Estávamos em plenos anos 70, e a diversão era enorme. A brincadeira começou a tornar-se bastante séria e anos depois obtivemos muitos prémios internacionais com os nossos cavalos. No início dos anos 80, já eramos a maior Coudelaria de Cavalos Árabes em Portugal e competíamos em Competições Internacionais.

No final dos anos 80, a famosa peste do cavalo ditou um fim amargo a esta aventura. Os cavalos não podiam viajar nem competir nos próximos 5 anos. Ao mesmo tempo a nossa saúde não era a mesma e após alguns anos de sofrimento, a minha querida mulher Rosário faleceu em 1994.

Sozinho, sem a minha mulher, sem cavalos, continuou a viver no Casal Sta. Maria, até que um grave problema de saúde, trouxe-me para a Suíça para uma operação. Foi em 2006 e tinha na altura 96 anos de idade, quando acordei da cirurgia com a ideia de fazer vinho. Como sempre na minha vida com paixão e resiliência, comecei o projecto 3 semanas depois e as primeiras vinhas foram plantadas seis meses depois.

Hoje, 10 anos depois, contínuo com energia apesar dos meus 104 anos de idade. O meu sonho tornou-se realidade, mas admito que teve um preço alto, as minhas energias começam a desaparecer. Tenho nas gerações vindouras grandes esperanças, o meu neto Nicholas, os seus passeios nas vinhas, as provas de vinho mostram-me que cresce neles esta mesma paixão.

Sinceramente espero que todos vocês possam-nos um dia visitar e ficarem maravilhados com o Casal Sta. Maria, tanto quanto eu fiquei em 1962, quando o vi pela primeira vez. Apreciem os nossos vinhos e o Casal Sta. Maria. A nossa casa é vossa.

Barão Bodo von Bruemmer, carta escrita no Verão de 2016